Grupos de cientistas criticam projeto de semiárido no RJ: “o semi pode virar árido”

Celebrar a reclassificação do clima seria como comemorar uma derrota, em vez de trabalhar para reverter a situação.

Na semana passada, políticos se reuniram na região para articular a derrubada do veto do Governo Lula sobre a proposta de reclassificar o clima do Norte e Noroeste do Rio de Janeiro como semiárido para permitir que produtores rurais tenham acesso a créditos e ao programa Garantia-Safra, além de um fundo anual para financiamento de infraestrutura. Enquanto os políticos apresentavam resultados comprovando a mudança do clima, a comunidade cientifica atualizava suas conclusões: o que hoje é semiárido pode virar árido.

   Foi um claro recado de que a proposta de reclassificar as duas regiões menos desenvolvidas do estado pode agravar ainda mais a situação de emergência climática, porque não atacaria o problema, apenas uma das consequências, que é o prejuízo de produtores rurais durante as estiagens cada vez mais severas. 

    Para o Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (UFF) e o Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles (UENF, IFF, UFF, UCAM) “foram o desmatamento e a drenagem excessiva de lagoas que tornaram a região semiárida!”. E criticaram que a solução trazida pelo projeto de lei vetado é controversa ao ignorar a degradação ambiental, que deu origem ao problema.

    Eles ainda fizeram uma observação importante, o projeto de lei e consequentemente seu veto acabou por jogar grupos contra outros, como ambientalistas contra pecuaristas e pecuaristas contra pautas socioambientais, em vez de que o debate se baseasse em como garantir que o projeto de lei não aprofunde ainda mais a semiaridez. Eles também citam algumas medidas a serem discutidas, como a recriação de áreas úmidas na Baixada Campista, o reflorestamento em pontos críticos da região serrana e os compromissos dos representantes políticos da região com uma agenda que corrija (ou pelo menos comece a corrigir) a desigualdade na imposição dos custos ambientais aos diferentes segmentos da população.

Clima semiárido

    Ao contrário do Nordeste do Brasil, onde acumulados inferiores a 800 milímetros por ano são comuns, a média de chuva em cidades como Itaocara e Pádua fica próximo aos 1.050 mm. Mas o Nordeste é semiárido há mais de 60 milhões de anos de forma natural, enquanto que o interior do Rio de Janeiro vem sendo transformado num semiárido por ações humanas, especialmente nas últimas décadas.

   Dados do INMET apontam uma redução de 14% do volume anual de chuvas na região em comparação à média climática de 1980-2010, cujas médias pluviométricas passavam dos 1.200 mm. Porém, os efeitos da estiagem não está apenas na chuva que não cai. O artigo do Núcleo de Pesquisas e Estudos Socioambientais (UFF) e do Núcleo Norte Fluminense do INCT Observatório das Metrópoles (UENF, IFF, UFF, UCAM) cita o desmatamento como responsável por dizimar “o grande regulador de águas que eram as florestas, causando erosão, assoreamento, enchentes e secas severas”, seguido pela drenagem excessiva que eliminou grandes reservatórios de água doce, provocando um processo de ressecamento progressivo em algumas áreas.

Fonte: Folha Itaocarense

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